Category Documental

Marliéria é pequena e silenciosa, dessas cidades que não se explicam, apenas permanecem. Fica no interior de Minas Gerais, próxima ao Vale do Aço, encostada no verde denso do Parque Estadual do Rio Doce. Foi ali que meus pais viveram e foi ali que aprendi a olhar.

No início, a câmera apontava apenas para a natureza. Pássaros, matas fechadas, rios, detalhes mínimos, a vida vegetal insistindo em existir. Não havia gente nas imagens. Só o que parecia eterno. Eu voltava sempre aos mesmos lugares, como quem revisita uma memória, até perceber que o cenário mudava. A Mata Atlântica recuava, substituída por extensões regulares de eucalipto. Os rios afinavam, algumas espécies simplesmente deixavam de aparecer. A paisagem já não respondia da mesma forma.

Foi então que encontrei as pessoas. Moradores antigos, agricultores de subsistência, criadores de gado, produtores de leite. Gente que conhecia o tempo pelo céu e pela terra, não pelo relógio. Ao virar a câmera para eles, descobri outro território. Casas simples, café passado na hora, conversas longas, histórias que não cabem em estatísticas. Cada fotografia vinha depois de prosear, de sentar, de ouvir.

Algumas casas não tinham luz elétrica. Todas tinham memória. Lembro de cada encontro, da câmera, da lente, do filme escolhido. Só vi as imagens depois, quando já estava longe. O analógico permite isso, estar inteiro no momento e aceitar que o resultado venha mais tarde. Primeiro a presença, depois a revelação.

Este ensaio é uma amostra do que vi. Não é um registro rápido. É um retorno. O tempo ali é outro. E quando o tempo muda, a verdade também muda junto.

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